quarta-feira, 29 de junho de 2011

Para ler de manhã e à noite


Aquele que amo
disse-me
que precisa de mim.

Por isso
cuido de mim
olho meu caminho
e receio ser morta
por uma só gota de chuva.

Bertolt Brecht - Poemas 1913 - 1956
Van Gohg

Uma noite


O quarto era pobre e vulgar,
oculto no alto da taverna suspeita,
da janela via-se a ruela,
suja e estreita. De baixo
vinham as vozes de alguns operários
que jogavam cartas e que se divertiam.

E ali, na cama rústica e humilde,
possuí o corpo do amor, possuí os lábios
voluptuosos e róseos da embriaguez -
róseos de uma tal embriaguez que, mesmo agora
quando escrevo, depois de tantos anos!,
em minha casa solitária, novamente me embriago.

Konstantinos Kaváfis

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fundo

Não conheces o melhor de mim.
O melhor de mim está submerso
por camadas de cimento, oculto,
ganhando fôlego, sendo feito. Aqui,
é só uma fatia de bolo, gota, nesga
a nutrir-se, a exercitar a sensibilidade.
Muito falta, mas sei que o ensino
do espírito, simples, nunca foi,
e que por fim, talvez, que nem tu,
eu pereça e morra não conhecendo
o melhor de mim - de tão fundo que sou.

Por hora, é tudo o que à tona posso
trazer: o que te dou é o melhor de mim.

Por Jorge Fróes

Exercício

Às vezes me despeço das coisas que tenho.

Um exercício para o dia
quando as coisas faltarem comigo.

Um exercício para o dia
quando eu faltar com as coisas.

Deve ser por isso que não sinto saudades,
minha despedida é sempre antes.

Este é o meu jeito de reverenciá-las.

Por Jorge Fróes

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Mediocridade

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Jules Laforgue, do livro Litanias da Lua, tradução de Régis Bonvicino

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Por que sou um perdedor

Bem, é que torço pelo touro. Todo o espetáculo, toda a estrutura é para que o toureiro vença, mesmo assim, eu torço pelo touro. É mais justo, e não há o mínimo espanto, quando algumas vezes, talvez pelo excesso de confiança do toureiro, de que nunca vai perder, o touro o ergue.

Quando falo de espanto, é facial, a cara que um homem faz ao acertarem o saco de outro homem, acontece aí uma solidariedade masculina. Quando o touro ergue o toureiro, se dá uma solidariedade tipicamente humana, como se o touro, também os atingisse. Espanto. Dor. Eu não os tenho, ao contrário, o que sinto é um comprazimento e o sentimento de que a justiça foi feita.

O touro, mesmo que momentaneamente ganhou uma. Reagiu. Isso é um direito do touro e de qualquer um que seja oprimido. Viva o touro (que sem ter lido Marx), levanta o toureiro, desmanchando no ar a sua solidez.

Por Jorge Fróes

Um poema de horror

Pelo caminho
crianças imploram carinho
a mulher cansada pensa em aborto
mendigos morrem de frio
um bêbado caído na calçada.
Eu vou para casa
ligo a tv e dou risada.

Por Jorge Fróes

Pedaços

as pessoas são pedaços
algumas têm mais
outras menos
são assim são assado
como (parte) algo a ser encontrado
tortas e mesmo erradas
nem boas nem más
as pessoas são o que são
pedaços pão bolo melancia
madeira terra carne
alberto caeiro pessoa (porção)
fragmentos nos quais me encaixo
pedaços dos quais eu acho

Por Jorge Fróes

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os girassóis cegos

Agora sabemos que o capitão Alegria escolheu sua própria morte às cegas, sem olhar o rosto irado do futuro que espera as vidas traçadas ao revés. Escolheu extinguir-se sem paixões nem sobressaltos, sem erguer o tom da voz a não ser no momento em que atravessou o campo de batalha com as mãos levantadas tão-somente para não parecer suplicante, e diante de um inimigo incrédulo, gritar muitas vezes: "Sou um rendido!". Sob um ar morno, transparente como um aroma, Madri anoitecia num silêncio melancólico alterado apenas pelo estrondo abafado dos obuses caíndo sobre a cidade em cadência litúrgica, não bélica. "Sou um rendido". Durante duas ou três noites, é o que nos consta, o capitão Alegria esteve definindo esse momento. É provável que se negasse a dizer "eu me rendo", porque essa frase responderia a algo congelado num instante, quando a verdade é que ele fora se rendendo pouco a pouco. Primeiro se rendeu, depois se entregou ao inimigo. quando teve oportunidade de falar sobre isso, definiu seu gesto como uma vitória ao revés. "Embora todas as guerras sejam pagas com os morto, faz tempo que lutamos por usura. Teremos de escolher entre ganhar uma guerra ou conquistar um cemitério", concluia numa carta que escrevera à sua namorada Inês em janeiro de 1938. Agora sabemos que ele, sem saber, tinha recusado de antemão ambas as opções.

Fragmento do conto Primeira derrota 1939 ou Se o coração pensasse, deixaria de bater, escrito por Alberto Méndes, escritor espanhol.

sábado, 2 de abril de 2011

Ei, professor


"Dez anos dando aula, trinta e oito anos de idade, e se eu tivesse de me avaliar eu diria, Você está fazendo o melhor que pode. Há professores que lecionam e não dão a menor bola para o que os alunos pensam sobre eles. A matéria do programa é tudo o que interessa. Esses professores são poderosos. Dominam suas turmas com uma personalidade respaldada pela grande ameaça: a caneta vermelha que escreve no boletim o temido Insuficiente. Sua imagem para seus alunos é, Eu sou o seu professor, não o seu conselheiro, não o seu confidente, não o seu pai. Ensino a matéria: você pega ou não pega.

"Muitas vezes penso que eu deveria ser um professor durão, disciplinado, organizado, que se atém ao seu objetivo, um John Wayne da pedagogia, mais um professor irlandês que brande com ar ameaçador sua vara, a sua bengala, a sua chibata. Professores durões entregam sua mercadoria durante quarenta minutos. Tratem de digerir essa aula, moleques, e estejam preparados para vomitar tudo no dia da prova.

"Às vezes eu brinco, Sente aí nessa cadeira, garoto, e fique quieto, senão eu vou partir a sua cabeça dura, e eles riem porque sabem. Puxa, ele tem cada uma. Quando eu me finjo de durão eles ficam ouvindo sossegado, até que passe o ataque. Eles sabem.

"Não vejo uma turma como uma unidade sentada à minha frente e me dando atenção. Há rostos que mostram graus variados de interesse e de indiferença. O que me desafia é a indiferença. Por que esse sacana está ali conversando com ela quando devia estar prestando atenção no que eu estou falando? Desculpe, James, tem uma pessoa aqui na frente dando aula.

"Ah, tá legal, tá legal.

"Há momentos e há fisionomias. Os alunos podem ser tímidos demais para nos dizer que a aula foi boa mas pela maneira como saem da sala de aula e pela maneira como olham para você a gente percebe se a aula foi um sucesso ou algo a se esquecer. As expressões de aprovação aquecem o coração da gente no metrô para casa".

Esse foi um trecho do livro "Ei, professor", do escritor novaiorquino e bem irlandês Frank McCourt.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Uma ideia (ainda) não posta em prática

Um dia quisemos fazer uma publicação pequena, onde colocaríamos textos que tivessem a nossa maneira de pensar. O jornal (?) se chamaria José e, na capa, ler-se-ia este poema, que iria "dedicado" aos muitos professores que se opõem à greve:


DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS

Querem que o abutre coma miosótis?
O que exigem do chacal,
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
por que olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue
nas calças do general? Quem
trincha, diante do agiota, o capão?
Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata
sobre o umbigo que ronca de fome? Quem
aceita a propina, a moeda de prata,
o centavo para calar-se? Há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
os aplaude, quem
lhes põe insígnias no peito, quem
é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade,
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido,
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
é ainda clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
andam em alcateias.

Louvado sejam os salteadores: vocês
convidam ao estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

Do livro "Eu falo dos que não falam", do poeta alemão
Hans Magnus Enzensberger. Ed. Brasiliense, 1985.

segunda-feira, 21 de março de 2011

OS AMIGOS

A mim, o teatrólogo
A guerra separou de meu amigo, o cenógrafo.
As cidades em que trabalhamos já não existem .
Andando pelas cidades que ainda existem
Digo por vezes: aquela peça azul de roupa
Meu amigo a teria colocado em lugar melhor.

Bertolt Brecht

sábado, 19 de março de 2011

Professores(as), nada disso !

Não leiamos aos alunos “Resíduo”, do amigo Drummond. Eles podem notar que há neste texto alguma coisa importante para a vida que virá; outros podem rir deles e de ti, professor. Também não devemos ler nenhum dos pequenosgrandes textos do Eduardo Galeano. Minha impressão é de que na casa dessa gurizada os pais, quando souberem, vão reclamar, e minha experiência com diretores(as) diz que eles(as) não querem saber de pais reclamando.


Não peçamos trabalhos também sobre qualquer texto. Dia desses de fim de trimestre pedi a uma turma de 7ª série que comentasse com seus pais sobre “Festa”, um continho do Wander Piroli que fala de ser feliz com pouco, de suar e ser feliz com o suor, e nem pais nem alunos quiseram se dar o trabalho de ler aquela obra de uma só página. Ninguém entregou o trabalho e ainda ficaram brabos com minha cobrança.


Lá por novembro, quando estivermos perto do Dia da Consciência Negra, ninguém, por favor, ninguém tenha a ideia de mostrar aos alunos qualquer poema do Oliveira Silveira. É bruto ter de ouvir, inclusive de colegas, que “isso é ofensivo demais”. Esqueçam, sejamos o que eles querem que sejamos: façamos a chamada no início, passemos as conjunções subordinadas, cobremos que todos saibam a conjugação do modo imperativo dos verbos menos usados, a transitividade verbal ou qualquer outra coisa que não o significado que toda base pede. Por dois motivos: porque você está mais perto de fazer algo mais fácil e porque está no programa exigido pela escola.


E no fim da aula escrevam atrás da folha de chamada o conteúdo dado, bem claramente. Essa é a real função do professor. Fazer chamada, dar a gramática e escrever o conteúdo dado. Fazer a prova e a recuperação. Não deixar doidos(as) os(as) diretores(as), os(as) orientadores(as), ninguém.


O mundo não necessita de gente com conhecimento; ele movimenta-se por si só!


Por : Rodriguez

Um pouco de Borges

LOS JUSTOS



Un hombre que cultiva su jardim, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que talvez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.


Do livro "La Cifra"

sexta-feira, 18 de março de 2011

Frágil

Andava como se fosse pular
à frente de um carro
ou saltar do alto de um prédio.
É que um amor ferira-lhe
terrivelmente o coração.
E a dor de um coração ferido
é como algo que se guarda
em vidros de conservas.

Por Jorge Fróes

Mas o que não traz infelicidade?

Quase tudo que falamos traz infelicidade.
Minha mãe muitas vezes chora e diz: Feliz de você, que ainda
me tem, mais tarde você vai ver como é triste estar sozinha no
mundo.

Mas eu nem preciso esperar por mais tarde.

Mais um fragmento de "por que a criança cozinha na polenta",

quinta-feira, 17 de março de 2011

No trem com Antônio Maria

Desse março tão sem fim, tão sem salário e com tantas contas a pagar, penso num dia a ser destacadoparticularmente triste e alegre. O dia 17. Alegre porque duas das pessoas mais talentosas e complexas da cultura brasileira aniversariavam; triste porque nenhuma delas, hoje, vive. Elis Regina, que não compunha um verso sequer, mas que soube tornar-se dona das músicas que cantava, seria ainda, não fosse tão dolorida, uma garota, levando em conta que Gil continua uma espoleta, Caetano, pleno e o Chico sempre põe nervoso o coração de muita moça.

Mas do aniversário da Pimentinha, souberam dar conta inúmeros jornais e vários canais de televisão. Sobre o Antônio Maria, o outro aniversariante, não vi quem falasse dele. E ele, se não tivesse partido em 1964, estaria completando... Enfim, uma idade bastante impossível para alguém que era tão cardisplicente, como costumava definir-se.

Leio Antônio Maria quase todos os dias no trem, indo para o trabalho. E, se não houvesse uma voz que vem do alto-falante me avisando sempre onde descer, desceria sempre longe do serviço. sabe-se com que paciência o pessoal me ouviria dizer: “Desculpem-me, foi o Antônio Maria... de novo”.

Antônio Maria foi um fenômeno. Dos maiores cronistas do país. Medindo nada menos que o mesmo tamanho de um grande poeta. E há quem diga que a crônica é um gênero literário menor. Num gênero literário menor, não é dado ler algo como “A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vão achar que as mãos e os deuses são de mentira”; ou ainda: “Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável a lucidez das pessoas fatigadas!”

Conta-se também (e é verdade) que Antônio Maria foi narrador esportivo e escreveu alguns dos sambas que estão sempre nas bocas, mas que a maioria desconhece o autor. Compôs, entre tantas letras, a letra da (quase) famosa Ninguém me ama: “Ninguém me ama, ninguém me quer/ Ninguém me chama de meu amor/ A vida passa, e eu sem ninguém/ E quem me abraça não me quer bem”.

Gosto mais do Antônio Maria do que sei sobre ele. Sei que era gordo, amigo do pileque e mulherengo – Mariinha que o diga. Também era, ao menos os textos dele assim o mostravam, um sujeito apaixonado e melancólico. E um colega me contou uma história muito bem-humorada sobre esse pernambucano que viveu no Rio. Um dia o Antônio Maria ligou para o também escritor Carlos Heitor Cony e eles tiveram um diálogo parecido com este:

“Cony, você nem sabe o que me aconteceu!”

“O quê, Maria?”

“Encontrei num voo moça muito bonita lendo o seu Matéria de memórias.”

“É mesmo? E ?”, perguntou, intrigado, o outro.

me apresentei a ela dizendo que eu era você.”

Não!!”, apavorou-se o amigo. “E ?”

nós começamos a conversar sobre mim, quer dizer, sobre você.”

Não sou muito bom em fazer diálogos, então, para encurtar, o Maria falou, para um atônito Cony, que havia levado a mulher a um motel. E arrematou: “E o pior é que VOCÊ brochou!”

Que mais dizer do Antônio Maria? pra dizerrepetirque ele era um fenômeno. Ele, a Elis e o Rubem Braga, que não sei quando faz aniversário.

Por Rodriguez

terça-feira, 15 de março de 2011

por que a criança cozinha na polenta

Quando fala, a senhora Hitz empina o nariz, como se estives-
se pendurada por um gancho de açougueiro. Seu rosto fica
comprido, a boca aberta.

Eu entro para dentro da senhora Hitz.

Por dentro, a senhora Hitz é cheia de prateleiras onde ficam
sentados pequenos policiais segurando pequenos blocos de
anotações e pequenos lápis.
São apontadores de lápis por profissão.
Quem gastar primeiro o seu lápis pode sentar-se em uma pra-
teleira mais alta.
O mais aplicado é eleito o rei dos apontadores e adquire o
direito de jogar o seu lixo em cima dos outros.

Fragmento do livro "por que a criança cozinha na polenta", de Aglaj Veterany, escritora romena.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O abraço na obra de Eduardo Galeano

CAPÍTULO I
Algumas definições do que é abraçar
Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, abraçar é “envolver (algo ou alguém) com os braços, mantendo-o junto ao peito; cingir com os braços; dar abraços recíprocos”. Algumas frases para exemplificar: “O aluno abraçou o professor”, “Exultantes com o desempenho da empresa, os sócios abraçaram-se uns aos outros”. No mesmo dicionário, uma outra definição que deriva para o sentido figurado diz que abraçar é “dispor-se em torno de, cercar, envolver, circundar”. Um exemplo: “O Guaíba, com suas águas, abraça Porto Alegre”. Ainda no Houaiss, outra definição de abraçar derivada para um sentido figurado: “começar a trabalhar por, dedicar-se a...”. Exemplo: “Sem pensar muito, resolveu abraçar causa tão nobre”.

Para além das definições acima, a América Latina é uma terra de abraços. Há 500 anos fomos abraçados por nações estrangeiras, cujo único intento era a exploração do que tínhamos de melhor – ora nossas riquezas, ora nossa fé ou, não raro, ambas. Durante esses cinco séculos, um abraço colonizador nos extraiu fôlego.

A seguir veio o abraço dos grilhões. Índios eram escravizados para trabalhar em minas de prata e negros, em plantações diversas. E seguimos abraçados, subdesenvolvidos e aspirantes a uma cidadania mundial que nos é negada.

Com um futuro demarcado pelo passado, nossa maldição pode vir a ser nossa redenção. O que Eduardo Galeano contempla quando olha é um tipo diferente de abraço. É o abraço da tolerância, da cultura em comum, o abraço da candura, daquele que se importa, o abraço na Terra, o abraço da esperança. Cultura essa que vem do fato de ele ser seguidor de uma tradição de escritores e pensadores – muitos já citados na Introdução – que sempre sonharam uma América Latina irmã, dona de seu próprio destino.

domingo, 13 de março de 2011

O abraço na obra de Eduardo Galeano

No final de 2003, eu e meu amigo Paulo de Quadros estávamos sem nenhum para o verão. Então descobri uma garota que precisava de alguém para escrever sobre um autor latino-americano. Disse-me ela: "Eu pago". Dei-lhe o preço e, logo em seguida, começamos, eu e meu camarada, este trabalho que fizemos com prazer.

INTRODUÇÃO


A América Latina sempre teve autores em cuja obra se procurou abordar uma certa responsabilidade social, no que diz respeito a captar um espírito de união entre seus povos, quer física ou espiritualmente; ambas, na maioria dos casos. Para citar alguns exemplos: José Martí, Pablo Neruda, Francisco Solano Lopez, Ruben Darío.

Dentre tantos, há um que se sobressai atualmente: o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Por sua ética combativa, por uma visão unificadora, por uma indignação que nos quer senhores de nós mesmos – apesar de nosso triste passado ou em função dele – e por uma linguagem clara, direta, emotiva e poética, cheia de imagens, que o diferencia sobremaneira dos demais autores de textos panfletários.

E se há uma imagem que representa bem a obra de Eduardo Galeano é o abraço. Abraço que serve de metáfora para uma idéia de América Latina, onde, apesar da divisão em vários países, a formação de seu povo obedece, tanto cultural como política, econômica e historicamente, a uma mesma origem que nos envolve e irmana como uma família.

O que Galeano quer dizer é que estamos todos abraçados; por uma herança comum de subserviência a interesses que nunca foram os nossos e pela exploração de riquezas que sempre nos pertenceram; por nossa condição humana (miseráveis que somos, uma vez que rumamos todos para morte); por um desejo de um futuro mais digno e redentor.

Por Rodriguez