quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Um homem doente faz a oração da manhã
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Às vezes com a pessoa a quem amo
Fico cheio de raiva
Por medo de estar só eu dando amor
Sem ser retribuído;
Agora eu penso que não pode haver amor
Sem retribuição, que a paga é certa
De uma forma ou de outra.
(Amei certa pessoa ardentemente
e meu amor não foi correspondido,
mas foi daí que tirei estes cantos.)
Walt Whitman
sábado, 10 de setembro de 2011
Escolha de um amigo
Oscar Wilde
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Natal em família

Meu pai contou-me esta história. Ela aconteceu no começo dos anos 20, em Seattle, antes do meu nascimento. Ele era o mais velho de seis irmãos e uma irmã, alguns dos quais haviam saído de casa.
As finanças da família estavam péssimas. O negócio do meu pai fora à falência, quase não havia empregos e o país estava perto de uma depressão. Naquele ano, tínhamos uma árvore de Natal, mas nada de presentes. Simplesmente não podíamos comprá-los. Na véspera do Natal, fomos dormir deprimidos.
Entretanto, quando acordamos na manhã do Natal, havia um monte inacreditável de presentes sob as árvores. Tentamos nos controlar no café-da-manhã, mas foi a refeição mais rápida de nossas vidas.
Então a diversão começou. Minha mãe foi a primeira. Ficamos em volta dela, na expectativa, e quando ela abriu seu pacote vimos que ganhara um velho xale que ela havia "posto em lugar errado" vários meses antes. Meu pai ganhou um machado velho, com o cabo quebrado. Minha irmã ganhou seus velhos chinelos. Um dos meninos ganhou uma calça remendada e amassada. Eu ganhei um chapéu, o mesmo que achava que havia deixado num restaurante um mês antes.
Cada coisa velha trouxe uma nova surpresa. Não demorou para que todos estivéssemos rindo tanto que mal conseguíamos abrir os pacotes. Mas de onde viera toda aquela generosidade? De meu irmão Morris. Durante meses, ele escondera coisas velhas, das quais sabia que não daríamos falta. Então, na véspera de Natal, depois que todos foram para a cama, ele embrulhara em silêncio os presentes e os pusera sob a árvore.
Foi um dos melhores Natais que tivemos.
Don Graves (do livro "Achei que meu pai fosse Deus", organizado por Paul Auster)domingo, 3 de julho de 2011
Danço
danço porque vozes do passado
cantam para mim
e então respondo.
Danço porque sou Kikongo,
Kimbundo, Baluba...
Danço para que a poeira
que assenta em meu corpo
seja somente do ato de dançar.
Danço para libertar minha africanidade.
Danço porque o vento dança,
as flores, os bichos,
e esta é minha forma
de integração.
Danço para que lanças-de-desrespeito
não me atinjam, mas sobretudo danço
porque vozes do passado cantam
e eu respondo.
Por Jorge Fróes
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Para ler de manhã e à noite
Uma noite

O quarto era pobre e vulgar,
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Fundo
O melhor de mim está submerso
por camadas de cimento, oculto,
ganhando fôlego, sendo feito. Aqui,
é só uma fatia de bolo, gota, nesga
a nutrir-se, a exercitar a sensibilidade.
Muito falta, mas sei que o ensino
do espírito, simples, nunca foi,
e que por fim, talvez, que nem tu,
eu pereça e morra não conhecendo
o melhor de mim - de tão fundo que sou.
Por hora, é tudo o que à tona posso
trazer: o que te dou é o melhor de mim.
Por Jorge Fróes
Exercício
Um exercício para o dia
quando as coisas faltarem comigo.
Um exercício para o dia
quando eu faltar com as coisas.
Deve ser por isso que não sinto saudades,
minha despedida é sempre antes.
Este é o meu jeito de reverenciá-las.
Por Jorge Fróes
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Mediocridade
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.
Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.
Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.
Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.
Jules Laforgue, do livro Litanias da Lua, tradução de Régis Bonvicino
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Por que sou um perdedor
Quando falo de espanto, é facial, a cara que um homem faz ao acertarem o saco de outro homem, acontece aí uma solidariedade masculina. Quando o touro ergue o toureiro, se dá uma solidariedade tipicamente humana, como se o touro, também os atingisse. Espanto. Dor. Eu não os tenho, ao contrário, o que sinto é um comprazimento e o sentimento de que a justiça foi feita.
O touro, mesmo que momentaneamente ganhou uma. Reagiu. Isso é um direito do touro e de qualquer um que seja oprimido. Viva o touro (que sem ter lido Marx), levanta o toureiro, desmanchando no ar a sua solidez.
Por Jorge Fróes
Um poema de horror
crianças imploram carinho
a mulher cansada pensa em aborto
mendigos morrem de frio
um bêbado caído na calçada.
Eu vou para casa
ligo a tv e dou risada.
Por Jorge Fróes
Pedaços
algumas têm mais
outras menos
são assim são assado
como (parte) algo a ser encontrado
tortas e mesmo erradas
nem boas nem más
as pessoas são o que são
pedaços pão bolo melancia
madeira terra carne
alberto caeiro pessoa (porção)
fragmentos nos quais me encaixo
pedaços dos quais eu acho
Por Jorge Fróes
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Os girassóis cegos
Fragmento do conto Primeira derrota 1939 ou Se o coração pensasse, deixaria de bater, escrito por Alberto Méndes, escritor espanhol.
sábado, 2 de abril de 2011
Ei, professor

segunda-feira, 28 de março de 2011
Uma ideia (ainda) não posta em prática

segunda-feira, 21 de março de 2011
OS AMIGOS
A guerra separou de meu amigo, o cenógrafo.
As cidades em que trabalhamos já não existem .
Andando pelas cidades que ainda existem
Digo por vezes: aquela peça azul de roupa
Meu amigo a teria colocado em lugar melhor.
Bertolt Brecht
sábado, 19 de março de 2011
Professores(as), nada disso !
Não peçamos trabalhos também sobre qualquer texto. Dia desses de fim de trimestre pedi a uma turma de 7ª série que comentasse com seus pais sobre “Festa”, um continho do Wander Piroli que fala de ser feliz com pouco, de suar e ser feliz com o suor, e nem pais nem alunos quiseram se dar o trabalho de ler aquela obra de uma só página. Ninguém entregou o trabalho e ainda ficaram brabos com minha cobrança.
Lá por novembro, quando estivermos perto do Dia da Consciência Negra, ninguém, por favor, ninguém tenha a ideia de mostrar aos alunos qualquer poema do Oliveira Silveira. É bruto ter de ouvir, inclusive de colegas, que “isso é ofensivo demais”. Esqueçam, sejamos o que eles querem que sejamos: façamos a chamada no início, passemos as conjunções subordinadas, cobremos que todos saibam a conjugação do modo imperativo dos verbos menos usados, a transitividade verbal ou qualquer outra coisa que não o significado que toda base pede. Por dois motivos: porque você está mais perto de fazer algo mais fácil e porque está no programa exigido pela escola.
E no fim da aula escrevam atrás da folha de chamada o conteúdo dado, bem claramente. Essa é a real função do professor. Fazer chamada, dar a gramática e escrever o conteúdo dado. Fazer a prova e a recuperação. Não deixar doidos(as) os(as) diretores(as), os(as) orientadores(as), ninguém.
O mundo não necessita de gente com conhecimento; ele movimenta-se por si só!
Por : Rodriguez
Um pouco de Borges
Un hombre que cultiva su jardim, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que talvez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.
Do livro "La Cifra"
sexta-feira, 18 de março de 2011
Frágil
à frente de um carro
ou saltar do alto de um prédio.
É que um amor ferira-lhe
terrivelmente o coração.
E a dor de um coração ferido
é como algo que se guarda
em vidros de conservas.
Por Jorge Fróes
